Saúde mental nas empresas: NR-1 e saúde emocional
- Bárbara Lobato
- 23 de jun.
- 3 min de leitura

A saúde mental dos trabalhadores tornou-se um dos principais desafios para empresas e gestores. De acordo com a pesquisa Creating Workplace Environments that Support Brain Health (Criando ambientes de trabalho que apoiam a saúde cerebral), desenvolvida pela Sodexo em parceria com a Social Impact Partners e a Global Brain Health Initiative, os problemas relacionados à saúde mental já custam cerca de US$ 5 trilhões por ano à economia global. A estimativa é que esse valor possa triplicar até 2030.
Segundo Myriam Cristina Maziero, psicóloga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, mais de 500 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais no Brasil em 2025, de acordo com dados do INSS.
Para a especialista, há duas grandes dimensões que explicam a crescente vulnerabilidade da saúde mental da população: o ambiente de trabalho, marcado por metas e pressões excessivas e altas demandas cognitivas, e a própria dinâmica da vida moderna, caracterizada pelo uso intenso de telas, jornadas exaustivas e pela invasão do trabalho na vida doméstica.
Um novo desafio para as organizações
Historicamente, a segurança do trabalhador esteve associada à prevenção de acidentes e à redução de riscos físicos. No entanto, os indicadores relacionados à saúde mental demonstram a necessidade de construir uma cultura organizacional capaz de promover ambientes mais saudáveis e acolhedores.
As empresas precisam reconhecer que o bem-estar psicológico influencia diretamente a qualidade do trabalho, o engajamento das equipes e a prevenção de afastamentos por transtornos mentais. Investir em saúde mental deixou de ser apenas uma questão de responsabilidade social e passou a ser um fator estratégico para a sustentabilidade das organizações.
O impacto da insegurança no emprego
Outro fator que contribui para o adoecimento mental dos trabalhadores é a insegurança em relação à manutenção do emprego. Segundo Myriam Maziero, o receio de ficar desempregado faz com que muitos profissionais permaneçam conectados ao trabalho mesmo fora do horário de expediente.
O medo de perder a fonte de renda e a capacidade de sustentar a família dificulta o descanso e aumenta os níveis de estresse. A especialista destaca que, no Brasil, a insegurança no emprego aparece como um importante risco psicossocial, diferentemente de muitos países europeus, onde esse fator tem peso significativamente menor nas avaliações sobre saúde mental no ambiente de trabalho.
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece as disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho no Brasil, passou por uma atualização em maio deste ano.
A nova regulamentação determina que as empresas também considerem os riscos psicossociais em seus programas de gerenciamento de riscos.
Na prática, isso significa identificar situações como assédio moral, excesso de cobrança, jornadas exaustivas, falta de autonomia, conflitos interpessoais e outros fatores capazes de comprometer a saúde mental dos trabalhadores.
Além da identificação, as organizações devem adotar medidas preventivas para reduzir esses riscos e promover ambientes de trabalho mais saudáveis.
A autonomia é apontada por Myriam Maziero como um dos principais fatores de proteção à saúde mental no ambiente profissional. A possibilidade de organizar tarefas, definir pausas e participar das decisões relacionadas à execução das atividades permite que os trabalhadores lidem melhor com as pressões e os desafios da rotina.
Quando os profissionais têm maior controle sobre o próprio trabalho, tendem a apresentar menores níveis de estresse e maior sensação de pertencimento, fatores que contribuem para o bem-estar e para a satisfação no ambiente organizacional.
Promover a saúde mental no trabalho, portanto, vai além de uma pauta de bem-estar. Trata-se também de estimular a produtividade com responsabilidade, fortalecer relações mais saudáveis e garantir condições de trabalho compatíveis com a dignidade humana. Fonte: Jornal USP



Comentários